O futuro já aconteceu?
Europa, Reino Unido e Estados Unidos marcaram 2035 para abandonar a criptografia atual. Para quem decide em 2026, isso não é futuro.
Se você aprova a matriz de risco da empresa, falta nela uma variável que o pós-quântico deixa evidente: quanto tempo levamos para reagir. Quando a preparação leva uma década, um evento distante deixa de ser um risco baixo.
Por Raphael Schneider · O futuro já aconteceu? Reflexões sobre tecnologia, risco e decisões que atravessam o tempo. · · 4 min de leitura
O canto verde da matriz
Quase toda apresentação de risco que chega a um conselho tem a mesma figura: uma matriz com probabilidade num eixo e impacto no outro, pintada de verde, amarelo e vermelho. Um evento muito improvável no curto prazo, por maior que seja o impacto, costuma ir parar perto do canto verde.
A matriz tem uma limitação que raramente é discutida. Ela não tem um eixo para o tempo que a empresa precisaria para reagir. E existe uma categoria inteira de riscos em que essa é a variável que decide tudo.
A conta que falta
Em 2015, o pesquisador Michele Mosca propôs uma conta simples para a ameaça quântica. Ele chamou de x o tempo que uma informação precisa continuar protegida, de y o tempo necessário para migrar os sistemas para uma criptografia nova (que, segundo ele, pode passar de 15 anos), e de z o tempo até existir um computador quântico capaz de quebrar a criptografia atual. A regra: se x + y for maior que z, o problema já existe hoje.
O detalhe importante é o y. Na matriz tradicional, só z entraria, como probabilidade. Mosca mostra que, se reagir demora muito, um evento distante já está atrasado. O NIST reproduz essa conta no seu documento de transição, de novembro de 2024, chamando-a de teorema de Mosca.
Quanto tempo leva reagir
O mesmo documento do NIST, que ainda está em fase de rascunho, diz que o caminho entre padronizar um algoritmo e integrá-lo de fato aos sistemas pode levar de 10 a 20 anos, e lembra que migrações criptográficas anteriores levaram mais de uma década.
A história confirma. O NIST desaconselhou o uso do SHA-1, um algoritmo de resumo criptográfico, em 2011. A primeira colisão prática, prova de que ele estava quebrado, foi anunciada pelo Google em 2017. A aposentadoria completa está marcada para o fim de 2030, quase duas décadas depois do primeiro aviso. O AES, padrão de criptografia simétrica que substituiu os antecessores, foi publicado em 2001; o 3DES só foi proibido para cifragem depois de 2023.
Quando a Casa Branca calculou, em julho de 2024, o custo de migrar os sistemas prioritários do governo federal americano entre 2025 e 2035, chegou a cerca de US$ 7,1 bilhões. Dez anos de trabalho, só para o governo de um país.
Os prazos já estão no calendário
Enquanto a matriz de risco trata o assunto como distante, os governos já marcaram as datas.
A NSA, no programa CNSA 2.0, espera concluir a transição dos sistemas de segurança nacional americanos até 2035, e quer uso exclusivo de algoritmos resistentes a quântica em assinatura de software e equipamentos de rede já em 2030. O NCSC britânico pediu, em março de 2025, um levantamento completo até 2028, a migração das prioridades até 2031 e a conclusão até 2035. O roteiro europeu, de junho de 2025, pede planos nacionais até o fim de 2026, migração dos casos de alto risco até 2030 e do resto, no que for viável, até 2035. O próprio documento europeu reconhece que o processo pode levar bem mais de cinco anos.
No Brasil, o ITI incluiu em janeiro de 2026 os primeiros algoritmos pós-quânticos na ICP-Brasil, a infraestrutura dos certificados digitais oficiais, ainda sem data para aposentar os antigos.
O detalhe que deveria interessar ao CFO
Para um executivo, 2035 parece longe: são nove anos. Para a infraestrutura, não é.
Pense num sistema comprado em 2026 com vida útil de dez anos, prazo comum para equipamentos de rede, sistemas industriais ou plataformas centrais. Ele ainda vai estar funcionando em 2035. A conta é minha, mas é simples: se a decisão de compra ignorar o calendário pós-quântico, a empresa está comprando hoje um problema com data de vencimento já publicada.
E há uma conta ainda mais desconfortável. Se o NIST diz que migrações levam de 10 a 20 anos, e entre 2026 e 2035 há nove, quem começar agora já começa no limite inferior do prazo. Quem começar depois, começa atrasado.
Três mudanças no jeito de medir risco
1. Incluir o tempo de reação na matriz. Para os riscos principais, uma coluna extra: quanto tempo levaríamos para responder se o evento acontecesse amanhã. Quando esse tempo é maior que o horizonte do evento, a cor da célula precisa mudar, por mais baixa que seja a probabilidade.
2. Planejar de trás para frente. Começar pelas datas já publicadas (2030 e 2035) e voltar até hoje. O NCSC sugere 2028 para o levantamento completo, e é um bom marco para qualquer empresa, mesmo fora do Reino Unido.
3. Comprar com o calendário na mão. Qualquer sistema com vida útil além de 2030 deveria ter, no contrato, o compromisso de suportar os novos algoritmos ou de ser substituível sem um projeto de anos.
A pergunta para o próximo comitê de risco
No próximo comitê, escolha os cinco maiores riscos da empresa e faça uma pergunta para cada um: se isso acontecesse amanhã, quanto tempo levaríamos para reagir? Se a resposta for maior que o tempo que imaginamos ter, o risco está no lugar errado da matriz.
Nove anos parece muito tempo. É menos do que o NIST diz que uma migração dessas costuma levar.
Fontes
- Michele Mosca, "Cybersecurity in an era with quantum computers: will we be ready?", IACR ePrint 2015/1075 (nov. 2015), publicado na IEEE Security & Privacy (2018)
- NIST IR 8547, rascunho inicial, "Transition to Post-Quantum Cryptography Standards" (nov. 2024)
- NIST SP 800-131A (jan. 2011) e anúncio de aposentadoria do SHA-1 (dez. 2022)
- Google Security Blog, "Announcing the first SHA1 collision" (fev. 2017)
- NIST, FIPS 197 (nov. 2001) e aviso sobre o 3DES (jun. 2023)
- Casa Branca/OMB e ONCD, "Report on Post-Quantum Cryptography" (jul. 2024)
- NSA, "Announcing the Commercial National Security Algorithm Suite 2.0" (set. 2022)
- UK NCSC, "Timelines for migration to post-quantum cryptography" (mar. 2025)
- NIS Cooperation Group, "A Coordinated Implementation Roadmap for the Transition to Post-Quantum Cryptography" v1.1 (jun. 2025)
- ITI, Instrução Normativa nº 35, DOC-ICP-01.01 v6.0 (jan. 2026)
Raphael Schneider escreve a coluna O futuro já aconteceu? no blog da HandyAuth. É tecnólogo em Segurança da Informação pela Fatec São Caetano do Sul e pós-graduado em Machine Learning pelo IGTI (hoje XP Educação, do grupo XP Inc.).