O futuro já aconteceu?
Um prontuário médico precisa ser guardado por 20 anos no Brasil. A criptografia que o protege vai durar tanto?
Se a sua empresa guarda segredos que precisam continuar segredos por uma década ou mais, a pergunta que importa não é quando o computador quântico vai chegar. É quanto tempo cada segredo precisa sobreviver a tecnologias que ainda não existem.
Por Raphael Schneider · O futuro já aconteceu? Reflexões sobre tecnologia, risco e decisões que atravessam o tempo. · · 5 min de leitura
Quando aconteceu a violação?
Imagine que sua empresa tem um segredo.
Ele está protegido hoje. Os controles funcionam, a tecnologia usada é considerada segura e a última auditoria não encontrou nada relevante.
Agora imagine que alguém copie esse segredo. Não consegue lê-lo, não consegue usá-lo, não consegue sequer entender o conteúdo. Então simplesmente guarda.
Por dez anos.
Até que uma tecnologia que não existia no dia do roubo torne possível ler tudo.
Nesse cenário, quando ocorreu a violação? Quando a informação foi copiada? Quando finalmente foi decifrada? Ou anos antes, quando alguém decidiu que a proteção disponível naquele momento seria suficiente durante toda a vida daquele segredo?
Essa não é só uma discussão sobre criptografia pós-quântica. É sobre uma característica desconfortável da tecnologia: o futuro pode alterar o risco de decisões que tomamos no presente. E empresas são particularmente ruins em pensar assim.
O ataque que começa com uma cópia
O cenário acima tem nome e já está em documentos oficiais. O NIST, instituto americano de padrões, chama de "harvest now, decrypt later": colher agora, decifrar depois. Num documento de novembro de 2024, o instituto escreve que dados cifrados continuam em risco porque adversários podem coletá-los hoje e guardar até ter como decifrá-los, e cita como exemplo segredos de governo e prontuários médicos.
O relatório da Casa Branca sobre criptografia pós-quântica, de julho de 2024, descreve o mesmo problema de um jeito que eu acho ainda mais claro para quem não é técnico: a criptografia não impede que alguém faça uma cópia exata dos dados cifrados. Na Europa, o roteiro de migração publicado pelos Estados-membros em junho de 2025 lista entre os alvos dados de governo, dados pessoais sensíveis e segredos comerciais.
Repare no que isso faz com a ideia de vazamento. Na maioria das empresas, o incidente começa quando alguém lê o que não devia. Aqui, o incidente começa com uma cópia que, no dia, não causa dano nenhum.
A meia-vida de um segredo
Em 2015, o pesquisador canadense Michele Mosca escreveu um artigo que virou referência no assunto. Uma das variáveis dele é o que chamou de vida útil de segurança: por quanto tempo uma informação precisa continuar protegida. Os exemplos que ele dá vão de 10 a 20 anos e chegam a 100 anos, para coisas como informações de saúde, segredos comerciais e dados de segurança nacional.
A lei brasileira dá alguns números concretos para essa vida útil. A Lei 13.787, de 2018, manda guardar o prontuário do paciente por no mínimo 20 anos a partir do último registro. A Lei de Acesso à Informação permite classificar um documento público como ultrassecreto por 25 anos, prazo que pode ser renovado uma vez. E há os segredos que nenhuma lei contabiliza: a ata do conselho sobre uma aquisição, a estratégia de preço de uma nova linha de produto, a pesquisa que ainda não virou pedido de patente, a negociação de um contrato de longo prazo.
Alguns segredos perdem valor amanhã. Outros continuam sensíveis por décadas. E quase toda classificação de dados que eu conheço trata os dois do mesmo jeito: "confidencial".
Quando o futuro chega
Ninguém sabe a data em que um computador quântico vai conseguir quebrar a criptografia usada hoje, e é honesto dizer isso logo. O que existe são estimativas, e elas vêm encurtando.
O Global Risk Institute faz um levantamento periódico com especialistas no tema. Na sétima edição, a de 2025, divulgada em março de 2026, os 26 especialistas ouvidos consideraram "bem possível" (de 28% a 49%) que um computador quântico capaz de quebrar a criptografia atual exista em dez anos, e "provável" (de 51% a 70%) em quinze.
Do lado técnico, a conta também ficou mais barata. Em 2019, Craig Gidney, do Google Quantum AI, estimou com Martin Ekerå que quebrar uma chave RSA de 2.048 bits exigiria 20 milhões de qubits ruidosos, trabalhando por cerca de oito horas. Em maio de 2025, Gidney publicou uma nova estimativa: menos de um milhão de qubits, em menos de uma semana. Os computadores de hoje ainda estão longe disso. Mas o número de qubits necessários caiu cerca de vinte vezes em seis anos.
Se um segredo precisa durar 20 anos e os especialistas consideram provável que a ameaça chegue em 15, a conta já não fecha a favor do segredo.
O detalhe que deveria incomodar quem cuida de dados
O NCSC, a agência de cibersegurança do Reino Unido, publicou em março de 2025 o seu calendário de migração para a criptografia pós-quântica. No meio das etapas técnicas, há um pedido que parece simples: que as organizações registrem a vida útil esperada dos dados que guardam.
Eu nunca vi esse campo numa política de classificação de dados. Temos "público", "interno", "confidencial", "restrito". Não temos "precisa continuar secreto até quando". E sem essa resposta não dá para saber se a proteção escolhida hoje vai durar o suficiente.
O que muda quando o segredo ganha prazo
1. Classificar pela meia-vida, e não só pelo sigilo. Para cada tipo de dado sensível, uma pergunta extra: por quanto tempo isso precisa continuar secreto? Cinco anos, vinte, cinquenta. A resposta muda a prioridade de tudo.
2. Proteger primeiro o que dura mais. Os dados de vida longa que trafegam pela rede são o alvo natural de quem coleta hoje para decifrar amanhã. É por eles que faz sentido começar a usar os algoritmos pós-quânticos, que já foram padronizados pelo NIST em 2024 e já estão disponíveis em navegadores e bibliotecas.
3. Guardar menos. O segredo mais protegido é o que não está armazenado. Cada dado sensível mantido além do necessário é um segredo a mais esperando a tecnologia certa.
A pergunta para a próxima ata
Na próxima vez que um documento estratégico for produzido, seja uma ata de conselho, o memorando de uma aquisição ou um projeto de pesquisa, faça uma pergunta antes de arquivar: por quanto tempo isto precisa continuar secreto, e a proteção que estamos usando dura esse tempo?
Talvez a violação mais importante da próxima década já esteja acontecendo. Não na cópia, que ninguém vai notar. Na decisão de achar que a proteção de hoje basta para sempre.
Fontes
- NIST IR 8547, rascunho inicial, "Transition to Post-Quantum Cryptography Standards" (nov. 2024)
- Casa Branca/OMB e ONCD, "Report on Post-Quantum Cryptography" (jul. 2024)
- NIS Cooperation Group, "A Coordinated Implementation Roadmap for the Transition to Post-Quantum Cryptography" v1.1 (jun. 2025)
- Michele Mosca, "Cybersecurity in an era with quantum computers: will we be ready?", IACR ePrint 2015/1075 (nov. 2015), publicado na IEEE Security & Privacy (2018)
- Lei nº 13.787/2018, art. 6º
- Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), arts. 24 e 35
- Global Risk Institute e evolutionQ, "Quantum Threat Timeline Report 2025" (mar. 2026, n=26 especialistas)
- Gidney e Ekerå, "How to factor 2048 bit RSA integers in 8 hours using 20 million noisy qubits" (2019)
- Craig Gidney, "How to factor 2048 bit RSA integers with less than a million noisy qubits", arXiv:2505.15917 (mai. 2025)
- UK NCSC, "Timelines for migration to post-quantum cryptography" (mar. 2025)
- NIST, FIPS 203, 204 e 205 (ago. 2024)
Raphael Schneider escreve a coluna O futuro já aconteceu? no blog da HandyAuth. É tecnólogo em Segurança da Informação pela Fatec São Caetano do Sul e pós-graduado em Machine Learning pelo IGTI (hoje XP Educação, do grupo XP Inc.).