O futuro já aconteceu?

Só 23% das empresas dizem conseguir trocar rápido a própria criptografia. O que falta na planilha é o direito de mudar.

Se você aprova contratos de tecnologia, precisa acrescentar um critério que quase nunca aparece na avaliação: quanto custa abandonar essa escolha. A migração para a criptografia pós-quântica está mostrando o preço de quem não pensou nisso.

Por Raphael Schneider · O futuro já aconteceu? Reflexões sobre tecnologia, risco e decisões que atravessam o tempo. · · 5 min de leitura

O lado que conseguiu mudar

No fim de setembro, a Cloudflare publicou um número que eu acho mais revelador do que qualquer previsão sobre computadores quânticos. Cerca de 70% do tráfego gerado por navegadores que passa pela rede dela já usa criptografia pós-quântica, a nova geração de algoritmos feita para resistir a esses computadores. Do outro lado da conexão, nos servidores das empresas, a proporção é de mais ou menos 15%.

A diferença não tem nada a ver com tecnologia disponível. Os algoritmos são os mesmos, padronizados pelo NIST em agosto de 2024. Tem a ver com quem consegue trocar.

O Google ligou a proteção pós-quântica por padrão no Chrome em 2024. A Apple colocou no iMessage no mesmo ano e, segundo o balanço anual da Cloudflare, o iOS 26 ajudou a levar a fatia de tráfego pós-quântico de 29% para 52% ao longo de 2025. O Signal tinha feito isso em 2023. Empresas que controlam a própria pilha de software, do código à atualização no aparelho do cliente, mudaram em meses.

As outras ainda estão tentando descobrir onde mudar.

Dez a vinte anos

O NIST, o instituto americano de padrões, não costuma ser dramático, e mesmo assim escreveu num documento de novembro de 2024 (o rascunho do NIST IR 8547) que o caminho entre padronizar um algoritmo e integrá-lo de fato aos sistemas pode levar de 10 a 20 anos. No mesmo texto, propôs que RSA e criptografia de curvas elípticas, a base da segurança da internet hoje, sejam consideradas obsoletas depois de 2030 e proibidas depois de 2035.

A história recente confirma o prazo. O SHA-1, um algoritmo de resumo criptográfico usado desde 1995, foi desaconselhado pelo NIST em 2011. A primeira colisão prática, que é a prova de que ele estava quebrado, saiu em fevereiro de 2017. A aposentadoria oficial está marcada para o fim de 2030. O TLS 1.0, protocolo que protegia conexões na web desde 1999, só foi formalmente proibido em março de 2021, 22 anos depois de nascer.

Quando a Casa Branca estimou, em julho de 2024, quanto custaria migrar os sistemas do governo federal americano para a criptografia pós-quântica entre 2025 e 2035, o número foi de cerca de US$ 7,1 bilhões. O mesmo relatório admite que as ferramentas automáticas podem não encontrar todos os lugares onde a criptografia antiga está em uso.

O que trava não é o algoritmo

A Capgemini ouviu executivos de 1.000 grandes empresas em 13 países para o relatório "Future encrypted", de julho de 2025. Sete em cada dez organizações já estavam avaliando ou implantando alguma proteção pós-quântica. Entre os executivos dessas empresas que já começaram, só 35% disseram manter um inventário centralizado de todas as chaves, algoritmos e certificados em uso. Só 23% concordaram que a infraestrutura de TI foi desenhada para permitir atualizações ou substituições rápidas.

E apenas 40% disseram conseguir responder com eficácia a uma falha crítica numa biblioteca como o OpenSSL, um componente que está dentro de boa parte dos servidores do mundo.

A DigiCert repetiu a medição em maio de 2026, com 1.001 decisores de TI e segurança nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália. Oitenta e sete por cento estão planejando, testando ou implementando a migração. Só 7% já implantaram. A barreira mais citada foi a complexidade dos sistemas legados.

Planejar quase todo mundo planeja. Trocar é outra conversa.

Dívida de decisão

A gente conhece bem a ideia de dívida técnica, o atalho que funciona hoje e cobra juros depois. O que a migração pós-quântica expõe é uma prima dela, que eu chamaria de dívida de decisão: escolhas razoáveis no momento em que foram feitas, mas que ninguém desenhou para serem desfeitas. Um hardware que vai ficar 15 anos na fábrica. Um contrato de dez anos com uma API proprietária. Um algoritmo espalhado em centenas de sistemas, cada um do seu jeito.

Em dezembro de 2025, o NIST publicou a versão final de um documento só sobre isso, o CSWP 39. Ele define agilidade criptográfica como a capacidade de substituir e adaptar algoritmos em protocolos, aplicações, software, hardware, firmware e infraestrutura preservando a segurança e a operação. Repare que a definição não fala em escolher o melhor algoritmo. Fala em conseguir trocá-lo sem parar a empresa.

No relatório da Capgemini há uma frase de Luciano Carolino, do Bradesco, que resume a mudança de mentalidade: a agilidade criptográfica é um objetivo central para o banco. Não é a escolha do algoritmo certo. É a capacidade de trocar quando ele deixar de ser.

Segurança perfeita também é rigidez

Aqui vai uma opinião que costuma incomodar quem compra tecnologia. A solução mais segura, mais barata ou mais rápida no dia da compra pode ser a mais cara de abandonar. Quanto mais fundo uma tecnologia entra no negócio, quanto mais ela é otimizada e personalizada, mais difícil fica tirá-la de lá.

Não estou defendendo comprar pior. Estou dizendo que a substituibilidade virou um atributo de produto, tão concreto quanto desempenho e custo. E quase nenhuma avaliação de fornecedor que eu conheço dá nota para ele.

Três escolhas para recuperar o direito de mudar

1. Pôr a saída na avaliação de compra. Antes de assinar, pergunte ao fornecedor como se troca o algoritmo, a chave ou o próprio fornecedor, quanto tempo leva e quanto custa. Se a resposta for vaga, isso também é uma resposta.

2. Concentrar a criptografia em vez de espalhá-la. Algoritmo escolhido dentro de cada sistema, por cada time, é o cenário que transforma uma troca em um projeto de anos. Quando a criptografia passa por um ponto central, trocar vira configuração.

3. Cronometrar uma troca de verdade. Escolha um certificado ou um algoritmo crítico e simule a substituição. Quanto tempo levou para achar onde ele estava? Quem precisou ser chamado? É o ensaio que separa os 40% que conseguem responder a uma falha crítica dos 60% que descobririam no dia.

A pergunta para o próximo contrato

Na próxima renovação de um sistema importante, faça uma pergunta que raramente aparece na mesa: se daqui a três anos esta tecnologia, ou este fornecedor, deixar de ser uma boa escolha, quanto tempo e quanto dinheiro vamos gastar para sair?

Os navegadores já passaram dos 70%. Os servidores das empresas estão perto dos 15%. A diferença não foi de coragem. Foi de quem tinha conseguido manter o direito de mudar.

Fontes

  • Cloudflare, "Is your domain using post-quantum encryption?" (set. 2026)
  • Cloudflare Radar, "2025 Year in Review" (dez. 2025)
  • NIST, FIPS 203, 204 e 205 (ago. 2024)
  • NIST IR 8547, rascunho inicial, "Transition to Post-Quantum Cryptography Standards" (nov. 2024)
  • NIST, anúncio de aposentadoria do SHA-1 (dez. 2022) e Google Security Blog, "Announcing the first SHA1 collision" (fev. 2017)
  • IETF, RFC 8996 (mar. 2021)
  • Casa Branca/ONCD, "Report on Post-Quantum Cryptography" (jul. 2024)
  • Capgemini Research Institute, "Future encrypted: Why post-quantum cryptography tops the new cybersecurity agenda" (jul. 2025, n=1.000 organizações, 13 países)
  • DigiCert e Propeller Insights, pesquisa de prontidão quântica (jul. 2026, n=1.001)
  • NIST, CSWP 39, "Considerations for Achieving Cryptographic Agility" (dez. 2025)

Raphael Schneider escreve a coluna O futuro já aconteceu? no blog da HandyAuth. É tecnólogo em Segurança da Informação pela Fatec São Caetano do Sul e pós-graduado em Machine Learning pelo IGTI (hoje XP Educação, do grupo XP Inc.).

Fale com a HandyAuth: contato@handyauth.com